Line
Postado em 24/09/2018 às 10:29

Renata Mattar em ´Cantos de trabalho'

Jorge Barboza

‘Cantos de trabalho’ são as cantigas que os trabalhadores rurais entoam durante seus trabalhos em mutirão. Podem ser canções de plantar e colher, de quebrar coco, por exemplo, algumas tinham nos versos instruções para a realização do trabalho. É como se a cantoria fizesse diminuir o esforço físico e ajudasse a passar o tempo mais depressa. Esses cantos são a base do CD Cantos de Trabalho II, do grupo paulista Cia. Cabelo de Maria, que o selo Sesc põe no mercado após o sucesso do Cantos de Trabalho I, lançado em 2008.

 

11 anos depois, a Cia. Cabelo de Maria volta e mostra como é rico esse universo. O novo disco apresenta mais de duas dezenas de temas recolhidas em variadas localidades do Brasil, como cocos e cantigas das destaladeiras de fumo de Arapiraca (Alagoas), ou as cantigas de pisar o chão de barro e da colheita do arroz do Crato (Ceará) ou a moda de raspagem da mandioca de Barrocas (Bahia) ou ainda da capina de roça de Caxias (Maranhão). O critério para a escolha desse repertório foi, segundo Renata, “além da beleza poética, rítmica e melódica de cada tema, abordar essa variedade de trabalhos”. Outro diferencial do disco é a presença das vozes masculinas, através dos Trabalhadores Rurais de Serra Preta, da Bahia, e dos próprios integrantes da Cia.

 

O Brasil é tão grande, e mesmo com todo o seu desenvolvimento, em algumas partes do país, essa cultura permanece intacta. E Renata Mattar segue gravando e catalogando, com seu interesse de pesquisadora mas também de fã dessa cultura. Ao lado do arranjador, compositor e instrumentista gaúcho, radicado em S. Paulo, Gustavo Finkler, ela transforma aquele repertório em CDs e shows, dando possibilidade, além dessa preservação, que o público possa ter acesso a esse outro Brasil.

 

As canções, de domínio público, têm versos simples como “Mandei fazer um relógio/ Da casca do caranguejo/ Para contar os minutos/ Das horas que eu não te vejo” do coco de roda Pisa Morena pra Ninguém ver. Ou a delicadeza de outro coco, Minervina, “A chuva que choveu ontem/ Apanhei toda na mão/ Embrulhei num lenço branco/ Mandei pra meu coração”.

 

Renata Mattar é paulistana, fez faculdade de canto lírico e morou durante muito tempo no Recife (PE), para onde foi convidada para integrar a equipe do escritor Ariano Suassuna, que era Secretário de Cultura. Lá, também foi integrante do grupo Comadre Florzinha. Vem desse período seu interesse por essas cantigas. Também integrou a Orquídeas do Brasil, banda do cantor e compositor Itamar Assumpção. Em mais de 15 anos de carreira, conduziu gravações, participou de rituais e festas tradicionais, aprendeu versos e músicas. No teatro, foi responsável pela direção e pesquisa musical dos espetáculos Auto da Paixão – Doze Cânticos de Amor e Morte; Romeu e Julieta de Ariano Suassuna e Marias de Andrade, baseado na pesquisa musical de Mário de Andrade.

VejaTambém


comments powered by Disqus